16/11/2020

“Nunca aprendi a pedir ajuda” | por Joyce Baena

“Fazendo uma oficina de escuta com o Claudio Thebas, tive um momento bem importante comigo mesma. Durante um dos exercícios, fechei os olhos e me conectei com a Joycinha, pequena, de 6 anos. Coloquei meu ouvido na sua boca e ouvi o que ela tinha a dizer para a Joyce de hoje. E era algo importante de se ouvir, algo que eu não poderia nunca esquecer.

Ela disse: — lembra de pedir ajuda.

Percebi que, em função de várias situações enfrentadas pela minha família, eu cresci tão rápido e enfrentei tantas coisas sozinha e de formas tão repentinas, que não aprendi a pedir ajuda. Olhando a forma que minha mãe, guerreira que sempre foi, tinha de enfrentar o mundo, eu dei um jeito de ir resolvendo tudo o que aparecia no caminho. Fui vencendo cada obstáculo: brigas, discussões, morte dos meus animais, descaso de professores, crueldade de outras crianças, dúvidas da infância, da adolescência, da fase adulta, separação dos meus pais, mudança de casa, de cidade, distância da família, dos amigos, nova escola, solidão, escolha e mudança de faculdade, namorados, nascimento da filha, casamento, minha separação, novas cidades, novos empregos, medo, gastrite, úlcera, empreender, aprender — sem olhar para o lado e sem reclamar. Só fui e no meio do caminho, não aprendi a pedir ajuda.

E isso me fez ser tão séria que esqueci de sorrir, de brincar, de me divertir. Logo eu, pisciana de nascimento, matei em mim a essência mais pura: a de sentir. Esqueci de sentir saudade, esqueci de me dedicar a mim mesma ou aos que amo, foquei no resultado, na eficácia e no sustento. Não percebi o que estava acontecendo enquanto estava acontecendo.

Não me sinto culpada e nem arrependida, afinal, na corrida desenfreada da existência, nem meus pais, nem avós e, com certeza, bisavôs aprenderam a pedir ajuda. Como fazer algo que nunca fizeram com você? Sem o exemplo, o ato se torna impraticável porque nem sequer é pensado.

Mas como viver sem ajuda? O que foi colocado nesse papel? Oras, responder essa é fácil. Ajuda pode ser trocada por ordem: faça isso, pegue isso, preciso disso! Frases que poderiam ter sido transformadas em perguntas: me ajuda com isso?

Parece algo tão simples, não é mesmo? Mas entre um modelo e outro existe um abismo. Enquanto a ordem é ditadora e autoritária, o pedido de ajuda é vulnerável e singelo. Enquanto a ordem é fechada e inflexível, a ajuda é aberta e permite o não.

Pedir ajuda deveria estar na cartilha da infância, da casa e da escola. Pedir ajuda nos ajudaria a crescer mais colaborativos e dispostos ao diálogo.

Apesar de toda essa reflexão acontecer dentro de mim durante um de exercício de escuta, a Joycinha só foi aprender a pedir ajuda num dia específico do ano de 2003.

Era uma tarde de sábado, chovia torrencialmente e uma amiga, a Eli, me ligou pra perguntar:

– Oi Joy, você vai na festa hoje?

– Oi Eli, acho que não. Com essa chuva, se eu pegar um ônibus vou me molhar toda e tô sem grana pro táxi.

Ela então disse: — Tá bom então, espero que pare de chover para que você possa ir.

Lembro que desliguei o telefone e uma onda de raiva e frustração se apossou de mim. Como assim eu estava escutando aquilo? Como assim ela não me ofereceu carona? Ela sabia que eu estava sem carro, “ela tinha carro” e minha casa era caminho pra festa. E ela faz isso? Que amiga é essa? Fiquei me corroendo por longos 2 minutos quando o telefone tocou novamente:

– Oi, sou eu outra vez. Você não vai me pedir?

– Pedir o quê, Eli?

– Pra eu te buscar, ué.

– Eu não.

– Por quê?

– Porque você sabe que eu não tenho carro, sabe que está chovendo. Se você quisesse me dar carona, você ofereceria.

– Joyce, eu estou fazendo isso de propósito. Você não sabe pedir nada pra ninguém. Vai ter que aprender na marra! Claro que eu posso ir te buscar mas só vou se você pedir!

O silêncio se apoderou de mim naquele momento. Não sei o que aconteceu ali mas era algo tão profundo dentro de mim que, simplesmente, fiquei muda. Em meio ao silêncio, balbuciei:

– Tá bom então, boa festa pra você. — E desliguei.

Meu silêncio doloroso ressuou por uma eternidade dentro de mim. Foram 5 minutos de peito rasgando um orgulho construído pelo meu pai, minha mãe, meus avós, pela escola, amigos, colegas de trabalho, sistema, por uma vida inteira de crenças distorcidas. Era a dor de entender o pedir como fraqueza e humilhação e de, ao mesmo tempo, ter que lidar com o medo desesperado do medo e da frustração.

Então liguei pra Eli:

– Oi, você pode, por favor, vir me buscar?

– Posso sim, passo aí as 16h.

Desliguei o telefone e chorei como um bebê. Entendi naquele momento que pedir não era se humilhar, que pedir era dar ao outro a permissão de dizer não. Era abrir escolha, era dar poder, era se colocar vulnerável diante do não.

Naquele momento também percebi que não saber pedir era também não saber doar. Porque se eu não peço porque acho humilhação, por outro lado, não permito ao outro pedir porque ao doar, estou provocando humilhação. Insanidade minha nessa construção de uma barreira construída na ausência da percepção.

Sou muito grata a Eli por me provocar, me desconstruir. Foi graças a ela que depois desse episódio, comecei a praticar.

Não foi fácil, pedi um pouco aqui, um pouco ali, recebi alguns sins, outros nãos. Depois de um tempo a libertação veio, devagar, um passo de cada vez. Passei a dar mais abertura, ajudar mais. Um processo lindo de se ver mas que tenho que ainda lembrar, me esforçar. Ainda está na mente, caminhando para o coração.

Quando às vezes esqueço e volto ao velho padrão, começo a resolver sozinha, me jogo na missão e esqueço que preciso de mim, mas também dos outros que também precisam de mim. Volto pra velha Joyce que precisa ser lembrada, de tempos em tempos: você não precisa resolver sozinha. E aí vem o Thebas, vem a Joycinha, a menininha que só precisava ter pedido ajuda mas que não sabia disso. Mas que bom que agora ela tem condição de me lembrar que essa é uma coisa importante de se fazer, que em um pedido de ajuda a gente se abre pra conexão e escuta.”

Autora: Joyce Baena @ La Gracia ( um projeto out of the box sobre COMUNICAR )

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